
Quando tinha 8 anos, comprei meus dois primeiros folhetos de cordel, na feira, das mãos de seu Severino Folheteiro: Vicente, O Rei Dos Ladrões e O Herói João de Calais. São duas narrativas clássicas do cordel brasileiro. Contam uma história a partir das proezas dos dois protagonistas. Todos nós gostamos de histórias. A humanidade é posta para dormir em sua primeira infância ao som de histórias saídas dos lábios de suas mães. Minha primeira infância cumpriu essa proposta. Minha mãe narrava as histórias de cordel, rimadas e, algumas, cantadas. Adormeci várias noites pensando nas maravilhas contadas nas histórias do cordel e imaginei que todo o produto cordelístico obrigatoriamente contaria uma história, seria uma narrativa. Esse encontro com o cordel, já contei isso várias vezes, oportunizou-me anos depois, aos 13 anos, o caminhar entre Borges, depois Poe, depois Twain, depois Kafka, depois Tchekov, ou seja, autores contadores de histórias. Um dia li, na biblioteca do padre, Jorge Amado. E assim seguiram-se os autores brasileiros até Inácio de Loyola Brandão. Esse ano, o ano treze de minha existência, foi o ano da tomada de consciência literária. E o cordel continuava abastecendo meus dias. Até deparar-me com um folheto cujo título chamou-me muito a atenção: Conselhos Paternais. Fui uma criança que cresceu sem pai e esse título encabulou-me. Quais conselhos um pai daria a um filho? Comprei-o e corri para casa para ler no pé de goiaba. Meu ponto de encontro com a literatura era o auto da goiabeira no quintal. Ao ler o cordel de José Bernardo descobri, imediatamente, que o cordel não contemplava apenas as narrativas, mas, também, a reflexão sobre o mundo, sobre os costumes, sobre as relações sociais. Mais tarde, mais maduro, descobri que o cordel contemplava todo o espectro dos gêneros literários. Ainda há poetas que pensam que o cordel é apenas narrativo, entretanto a observação mostra-nos o contrário. O cordel tem o veio épico, o veio lírico, o veio dramático. Vai além com a crônica e a biografia. Equipara-se, várias vezes ao ensaio. Vejamos quatro exemplos de cordéis que fogem à narrativa, enveredados pelo ensaio. São muito importantes estes títulos porque escritos por mulheres, o que muitos estudiosos e historiadores do cordel, como os que citei em artigos anteriores, não elencam. As mulheres são uma peça fundamental no processo histórico do cordel. E é necessário, urgente, contar essa história. Por enquanto:
Dalinha Catunda, cearense radicada no Rio de Janeiro, é uma militante expressiva do cordel. O Cordel de Saia é uma das referências para o cordel brasileiro na internet e o Cantinho da Dalinha é parada obrigatória para nós que procuramos entender o fenômeno cordelístico brasileiro. Sem meias palavras, atenta aos caminhos cordeliais, compreendendo a importância da reflexão sobre o fazer poético-cordelístico feminino escreve e publica As Herdeiras De Maria. Nasceu o cordel a partir da história de vida de Maria das Neves Batista Pimentel, a primeira mulher a publicar folhetos, em 1938, mas com o nome do marido, Altino Alagoano, estampado na capa como sendo o autor. Maria das Neves foi filha de Francisco das Chagas Batista, um dos principais editores de cordel do Brasil, com sua Popular Editora, montada em João Pessoa, na Paraíba do Norte. Foi mãe de Altimar Pimentel, estudioso da cultura brasileira, observador atento de nossa brasilidade. O folheto não trata de uma narrativa, mas da reflexão sobre o papel da mulher no universo cordelístico. O preconceito, o mercado escasso, a desconfiança dos pares masculinos são os elementos para a reflexão. Dalinha é zelosa em sua poética e cobra a excelência do cordel em sua produção. Não só na sua, mas na produção feminina e no todo nacional. Ao se referir à produção de Maria das Neves (Altino Alagoano) apresenta os títulos da pioneira: O Violino do Diabo, O Corcunda de Notre Dame e O Amor Nnnca Morre, nas estrofes 7, 8 e 9, respectivamente. Na estrofe 8, porém, há uma pequena inexatidão: o seu pai, editor, nunca editaria um folheto da filha. Francisco das Chagas morrera em 1930 e Maria das Neves só publicaria o seu primeiro trabalho em 1938. Mas isso não retira o brilho e o chamado. São 24 estrofes bem elaboradas, ritmo bem definido, pois Dalinha tem a acentuação do verso no coração, os versos voam, batem asas. É um ensaio pertinente. Chama a atenção a apresentação do poema feita por Bastinha Job, outra expoente do cordel brasileiro, escrevendo com intensa responsabilidade as páginas do cordel no Brasil.