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| Rosário Pinto, Moreira de Acopiara e Dalinha Catunda |
MOREIRA D ACOPIARA E SEU MULHERÃO
Moreira de Acopiara, poeta e cordelista bem atuante na literatura de cordel, membro da ABLC, faz parte da Caravana do Cordel, está sempre viajando, ministrando palestras, oficinas e encantando os amantes da cultura popular com suas declamações.
Hoje Moreira de Acopiara chega ao Cordel de Saia nos trazendo seu “MULHERÃO” que eu faço questão de apresentar aos leitores deste blog, desfrutem!
Mulherão
Moreira de Acopiara
Peça a um homem da sua geração
Que descreva o que é um mulherão,
Que por certo ele afirme sem ressábios:
“Mulherão deve ter seios graúdos,
Empinado bumbum, lábio carnudos
E um sorriso bonito nesses lábios.
Deve ter um e oitenta de altura,
Pernas grossas, ser fina de cintura,
Possuir olhos claros, mãos de fada.
Deve usar uns decotes generosos,
Saias curtas, ter dedos buliçosos
E gostar de curtir a madrugada”.
Mulherão desse tipo é coisa rara.
Porém, quando puder, pergunte para
Qualquer outra mulher, que, com razão
Ela vai refletir, se precaver,
E com voz de princesa responder
Com clareza o que é um mulherão:
“Mulherão é mulher sendo menina.
E você não encontra em toda esquina,
Mas tem muitas e muitas por aí.
Mulherão é aquela que, sem medo,
Vai à luta até tarde, acorda cedo,
E descasca qualquer abacaxi.
Mulherão é aquela que trabalha,
Vai de ônibus e volta, mas não ralha,
Mesmo quando o cansaço lhe consome.
Quando enfim acha um jeito de voltar
Topa um tanque de roupas pra lavar
E uma prole sentindo muita fome.
Mulherão é aquela que, tranquila,
Passa horas e horas num fila
Garantindo a matrícula das crianças.
E é aquela senhora aposentada
Que apesar de ser mal remunerada
Não se entrega nem perde as esperanças.
Mulherão é a jovem secretária
Que tão bem assessora a empresária,
E só falta morrer quando se engana.
Numa empresa precisa trabalhar,
E a família tem que administrar
Todos os sete dias da semana.
Mulherão se depila, se maquia,
Se penteia pra ir à padaria,
Passa cremes, caminha e se perfuma.
Usa salto, usa meia-calça, malha,
Faz dietas, e quando se atrapalha
Até sofre, mas diz: Errou? Assuma!
Mulherão leva os filhos para a escola,
Pro balé, natação, jogo de bola,
Vai buscar, bota a janta e diz que ama.
E se acaso algum deles cai doente
A coitada não dorme e, impaciente,
Fica de sentinela ao pé da cama.
Mulherão faz serviços voluntários,
Leciona, tem gestos solidários,
Quando sente um efeito estuda a causa,
Planta, colhe, opera e apascenta,
Corta o pão, dá receitas e inda enfrenta
Menstruação, TPM e menopausa.
Mulherão quando vê o seu marido
Fatigado, com o corpo dolorido,
Coça os pés, faz massagem e tira a dor.
Sabe sempre onde cada coisa está,
E é com muito capricho que se dá
No momento sublime do amor”.
Lumas, Brunas, Luanas, Feiticeiras,
Carlas, Sheilas... São lindas brasileiras,
Detentoras de graça e simpatia.
Mas, mulher de verdade, mulherão,
Imponente em qualquer situação
É quem mata um leão a cada dia.
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Este poema de Moreira de Acopiara faz parte do livro: O Sertão é meu lugar e poderá ser adquirido através do e-mail: m.acopiara@uol.com.br
referência bibliográfica do livro:
Acopiara, Moreira de. O sertão é meu lugar. São Paulo: Duna Dueto, 2011.
Foto e notas: Dalinha Catunda
Versos: Moreira de Acopiara