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terça-feira, 18 de julho de 2017

CORDEL DE SAIA EM AÇÃO

CORDEL DE SAIA EM AÇÃO

CORDEL DE SAIA, a convite da diretora Mirtes Medeiros e do Coordenador Técnico Lula Wanderley, participará amanhã, dia 19 e julho de 2017, às 10:30 h, dos festejos juninos que serão realizados na unidade CAPS EAT, Espaço Aberto ao Tempo, à rua Ramiro Magalhães, 521, Engenho de Dentro.
Levaremos poemas referentes a São João, Santo Antônio, e claro, sobre as mulheres na literatura de cordel.

As gestoras do CORDEL DE SAIA

Dalinha Catunda e Rosário Pinto

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Mulheres cordelistas e o olhar de Aderaldo Luciano

Quando tinha 8 anos, comprei meus dois primeiros folhetos de cordel, na feira, das mãos de seu Severino Folheteiro: Vicente, O Rei Dos Ladrões e O Herói João de Calais. São duas narrativas clássicas do cordel brasileiro. Contam uma história a partir das proezas dos dois protagonistas. Todos nós gostamos de histórias. A humanidade é posta para dormir em sua primeira infância ao som de histórias saídas dos lábios de suas mães. Minha primeira infância cumpriu essa proposta. Minha mãe narrava as histórias de cordel, rimadas e, algumas, cantadas. Adormeci várias noites pensando nas maravilhas contadas nas histórias do cordel e imaginei que todo o produto cordelístico obrigatoriamente contaria uma história, seria uma narrativa. Esse encontro com o cordel, já contei isso várias vezes, oportunizou-me anos depois, aos 13 anos, o caminhar entre Borges, depois Poe, depois Twain, depois Kafka, depois Tchekov, ou seja, autores contadores de histórias. Um dia li, na biblioteca do padre, Jorge Amado. E assim seguiram-se os autores brasileiros até Inácio de Loyola Brandão. Esse ano, o ano treze de minha existência, foi o ano da tomada de consciência literária. E o cordel continuava abastecendo meus dias. Até deparar-me com um folheto cujo título chamou-me muito a atenção: Conselhos Paternais. Fui uma criança que cresceu sem pai e esse título encabulou-me. Quais conselhos um pai daria a um filho? Comprei-o e corri para casa para ler no pé de goiaba. Meu ponto de encontro com a literatura era o auto da goiabeira no quintal. Ao ler o cordel de José Bernardo descobri, imediatamente, que o cordel não contemplava apenas as narrativas, mas, também, a reflexão sobre o mundo, sobre os costumes, sobre as relações sociais. Mais tarde, mais maduro, descobri que o cordel contemplava todo o espectro dos gêneros literários. Ainda há poetas que pensam que o cordel é apenas narrativo, entretanto a observação mostra-nos o contrário. O cordel tem o veio épico, o veio lírico, o veio dramático. Vai além com a crônica e a biografia. Equipara-se, várias vezes ao ensaio. Vejamos quatro exemplos de cordéis que fogem à narrativa, enveredados pelo ensaio. São muito importantes estes títulos porque escritos por mulheres, o que muitos estudiosos e historiadores do cordel, como os que citei em artigos anteriores, não elencam. As mulheres são uma peça fundamental no processo histórico do cordel. E é necessário, urgente, contar essa história. Por enquanto:
Dalinha Catunda, cearense radicada no Rio de Janeiro, é uma militante expressiva do cordel. O Cordel de Saia é uma das referências para o cordel brasileiro na internet e o Cantinho da Dalinha é parada obrigatória para nós que procuramos entender o fenômeno cordelístico brasileiro. Sem meias palavras, atenta aos caminhos cordeliais, compreendendo a importância da reflexão sobre o fazer poético-cordelístico feminino escreve e publica As Herdeiras De Maria. Nasceu o cordel a partir da história de vida de Maria das Neves Batista Pimentel, a primeira mulher a publicar folhetos, em 1938, mas com o nome do marido, Altino Alagoano, estampado na capa como sendo o autor. Maria das Neves foi filha de Francisco das Chagas Batista, um dos principais editores de cordel do Brasil, com sua Popular Editora, montada em João Pessoa, na Paraíba do Norte. Foi mãe de Altimar Pimentel, estudioso da cultura brasileira, observador atento de nossa brasilidade. O folheto não trata de uma narrativa, mas da reflexão sobre o papel da mulher no universo cordelístico. O preconceito, o mercado escasso, a desconfiança dos pares masculinos são os elementos para a reflexão. Dalinha é zelosa em sua poética e cobra a excelência do cordel em sua produção. Não só na sua, mas na produção feminina e no todo nacional. Ao se referir à produção de Maria das Neves (Altino Alagoano) apresenta os títulos da pioneira: O Violino do Diabo, O Corcunda de Notre Dame e O Amor Nnnca Morre, nas estrofes 7, 8 e 9, respectivamente. Na estrofe 8, porém, há uma pequena inexatidão: o seu pai, editor, nunca editaria um folheto da filha. Francisco das Chagas morrera em 1930 e Maria das Neves só publicaria o seu primeiro trabalho em 1938. Mas isso não retira o brilho e o chamado. São 24 estrofes bem elaboradas, ritmo bem definido, pois Dalinha tem a acentuação do verso no coração, os versos voam, batem asas. É um ensaio pertinente. Chama a atenção a apresentação do poema feita por Bastinha Job, outra expoente do cordel brasileiro, escrevendo com intensa responsabilidade as páginas do cordel no Brasil.

O OLHAR CRÍTICO DE ADERALDO LUCIANO SOBRE A MULHER CORDELISTA.

Por uma questão política e de revisão de termos, abandonei as designações "cultura popular" e "poetas populares" referentes, no primeiro caso, ao arcabouço colorido produzido pelo povo, presente nas suas manifestações artísticas, e, no segundo caso, à poesia escrevívida de poetas que não passaram pela iniciação acadêmica. O que levou-me a esse solilóquio foi a constatação bem observada de que esses setores, os "populares", são os menos agraciados nas ações públicas para a cultura e os menos apreciados pelos dublês de gestores culturais. Observei, e todos podem observar, que um "poeta popular" jamais ganhará um prêmio literário promovido pelo estado oficial tendo as elites culturais como senhoras dos critérios avaliativos. Observei também que os "poetas populares" são usados como adorno em suas festas e ao final são convidados a comer na cozinha e dormir no quartinho. Vi também que esses mesmos poetas quando chamados para se apresentar em escolas, festas públicas e solenidades percebem os menores cachês, quando não são chamados a apenas "divulgar o seu trabalho". O poeta popular e seus pares da cultura popular, a despeito do seu trabalho e labuta, são considerados tão somente como apêndices, desprovidos do rigor técnico e estético requerido pelos editais elitistas. Assim, aqueles dublês aos quais me referi acima, entregam um milhão aos seus pares e apenas um quinhão de migalha ao poeta e ao artista populares. Trago isso para o cordel porque os poetas dessa falange são considerados poetas populares. O povo os ama, é verdade, mas as elites os repugnam. O cheiro do povo, o suor do poeta do povo, do poeta de cordel, constrange a madame e o salão do palácio e o alpendre da casa-grande. Ouvi de um poeta do povo sua vontade: elevar o cordel ao erudito. É um absurdo estético. Não existe elevação nem depressão na poesia. A poesia existe ou não. E acima de tudo não necessita de adjetivos. A poesia é a poesia. Toda e qualquer adjetivação, assim como o próprio termo "popular", é criação das elites para promover a apartação. Independente disso, vamos olhar quatro títulos de cordel escritos por mulheres, continuando as reflexões de matérias anteriores:

terça-feira, 11 de julho de 2017

GLOSANDO COM OS AMIGOS

SÓ SETE PALMOS DE CHÃO
É TUDO QUE VAMOS TER.
*
ANTÔNIO CASSIANO
Nascemos sem trazer nada
Pelados , chorando a toa
Para arrumar coisas boa
Gastamos vida emprestada
A ganancia impregnada
Nas entranhas do poder
Riquezas, bens e prazer
Se tornam tudo em vão
SÓ SETE PALMOS DE CHÃO
É TUDO QUE VAMOS TER.
*
DALINHA CATUNDA
Amor é coisa divina
E não tem como negar
Quando decide chegar
O coração contamina
Não adianta vacina
Isso devemos saber
Quem tem amor pra viver
Aproveite a ocasião
SÓ SETE PALMOS DE CHÃO
É TUDO QUE VAMOS TER.
*
BASTINHA JOB
Disse Antônio Cassiano
Um Mote bem verdadeiro,
Dalinha glosou primeiro
De gaiata, entrei no plano
Que é real é humano
E nele vou me meter
Na mesma tecla bater 
Ela dá nota à lição:
SÓ SETE PALMOS DE CHÃO
É TUDO QUE VAMOS TER!

*
CREUSA MEIRA
Muita gente vive aflita
Querendo ganhar dinheiro
Junta até no estrangeiro
Em conta que habilita
Se é mulher vive bonita
Homem, cheio de poder
Sem pensar que ao morrer
Acaba toda ilusão
SÓ SETE PALMOS DE CHÃO
É TUDO QUE VAMOS TER.

*
LUIZ LIMINHA
Não adianta o orgulho
Soberba, ou mesmo dinheiro
O minuto derradeiro
Chega sem fazer barulho
Teu corpo vira um embrulho
Que a terra há de comer
Faça aqui por merecer
Não invente outra opção
SÓ SETE PALMOS DE CHÃO
É TUDO QUE VAMOS TER.
*

Mote de Antônio Cassiano
Xilo de Carlos Henrique

terça-feira, 4 de julho de 2017

ABRAÇANDO O CRATO

ABRAÇANDO O CRATO
*
Crato terrinha querida
Que trago em meu coração
Cada visita que faço
Aumenta minha paixão
Mesmo quando estou ausente
Recordo da boa gente
Que mora nesse rincão.
*
Essa terra não é minha
Porém eu já adotei
Aprendi comer pequi
Desde o dia que provei
Adoro uma cajuína
O buriti me fascina
Com o doce eu me fartei.
*
Hoje desejo abraçar
O Crato e sua gente
Desejar felicidades
Mesmo sem estar presente
Pois mesmo estando distante
Desta terra sou amante
E serei eternamente.

*
Versos e foto de Dalinha Catunda

terça-feira, 27 de junho de 2017

SÓ PARA QUEM GOSTA DE GLOSAR

SÓ PARA QUEM GOSTA DE GLOSAR
*
Com letras desenho imagens
que traduzem meu viver.
Eu leio para escrever,
além de empreender viagens.
Do mundo vivo às visagens,
busco fazer descrição.
Com métrica e oração,
dou vazão, entro no clima.
COM A CHAVE DA BOA RIMA
DESTRANCO MEU CORAÇÃO!
Marcos Medeiros
*
Da letra monto a palavra
Da palavra monto o verso
Componho nesse universo
Estrofes de minha lavra
Quem com versos se apalavra
Mostra sua distinção
Por isso preste atenção
Você que me subestima:
COM A CHAVE DA BOA RIMA
DESTRANCO MEU CORAÇÃO!
Dalinha Catunda
*
Xilo de Cícero Lourenço.

Mote de Marcos Medeiros

domingo, 25 de junho de 2017

CACIMBA DE POESIA

CACIMBA DE POESIA
1
Na cacimba da poesia
Eu meti minha cumbuca
Cada cuiada que dou
Mais verso brota da cuca
Pra cacimba renovar
Estou sempre a esgotar
Sou eu mesma quem cavuca.
2
Vou cutucar meu passado
Palestrar sobre meu chão
Pra falar da minha terra
Tenho boca de surrão
Dela retiro a tramela
Escancarando a janela
Eu descortino o sertão.
3
Eu nasci nas Ipueiras
Também me criei por lá
Tibunguei muito no rio
Já pesquei de landuá
E no meio da futrica
Pulava da oiticica
Nas águas do jatobá.
4
No caminho para o rio
Só singela brincadeira
Brincava com a malícia
A plantinha dormideira
Canapum eu estourava
A mutuca eu espantava
Na meninice brejeira.
5
Meu caminho era florido
Nas veredas muçambê
Com flores de espirradeira
Eu montava meu buquê
Nas cercas as jitiranas
Chão bordado de chananas
E eu delas a mercê.