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segunda-feira, 17 de julho de 2017

Mulheres cordelistas e o olhar de Aderaldo Luciano

Quando tinha 8 anos, comprei meus dois primeiros folhetos de cordel, na feira, das mãos de seu Severino Folheteiro: Vicente, O Rei Dos Ladrões e O Herói João de Calais. São duas narrativas clássicas do cordel brasileiro. Contam uma história a partir das proezas dos dois protagonistas. Todos nós gostamos de histórias. A humanidade é posta para dormir em sua primeira infância ao som de histórias saídas dos lábios de suas mães. Minha primeira infância cumpriu essa proposta. Minha mãe narrava as histórias de cordel, rimadas e, algumas, cantadas. Adormeci várias noites pensando nas maravilhas contadas nas histórias do cordel e imaginei que todo o produto cordelístico obrigatoriamente contaria uma história, seria uma narrativa. Esse encontro com o cordel, já contei isso várias vezes, oportunizou-me anos depois, aos 13 anos, o caminhar entre Borges, depois Poe, depois Twain, depois Kafka, depois Tchekov, ou seja, autores contadores de histórias. Um dia li, na biblioteca do padre, Jorge Amado. E assim seguiram-se os autores brasileiros até Inácio de Loyola Brandão. Esse ano, o ano treze de minha existência, foi o ano da tomada de consciência literária. E o cordel continuava abastecendo meus dias. Até deparar-me com um folheto cujo título chamou-me muito a atenção: Conselhos Paternais. Fui uma criança que cresceu sem pai e esse título encabulou-me. Quais conselhos um pai daria a um filho? Comprei-o e corri para casa para ler no pé de goiaba. Meu ponto de encontro com a literatura era o auto da goiabeira no quintal. Ao ler o cordel de José Bernardo descobri, imediatamente, que o cordel não contemplava apenas as narrativas, mas, também, a reflexão sobre o mundo, sobre os costumes, sobre as relações sociais. Mais tarde, mais maduro, descobri que o cordel contemplava todo o espectro dos gêneros literários. Ainda há poetas que pensam que o cordel é apenas narrativo, entretanto a observação mostra-nos o contrário. O cordel tem o veio épico, o veio lírico, o veio dramático. Vai além com a crônica e a biografia. Equipara-se, várias vezes ao ensaio. Vejamos quatro exemplos de cordéis que fogem à narrativa, enveredados pelo ensaio. São muito importantes estes títulos porque escritos por mulheres, o que muitos estudiosos e historiadores do cordel, como os que citei em artigos anteriores, não elencam. As mulheres são uma peça fundamental no processo histórico do cordel. E é necessário, urgente, contar essa história. Por enquanto:
Dalinha Catunda, cearense radicada no Rio de Janeiro, é uma militante expressiva do cordel. O Cordel de Saia é uma das referências para o cordel brasileiro na internet e o Cantinho da Dalinha é parada obrigatória para nós que procuramos entender o fenômeno cordelístico brasileiro. Sem meias palavras, atenta aos caminhos cordeliais, compreendendo a importância da reflexão sobre o fazer poético-cordelístico feminino escreve e publica As Herdeiras De Maria. Nasceu o cordel a partir da história de vida de Maria das Neves Batista Pimentel, a primeira mulher a publicar folhetos, em 1938, mas com o nome do marido, Altino Alagoano, estampado na capa como sendo o autor. Maria das Neves foi filha de Francisco das Chagas Batista, um dos principais editores de cordel do Brasil, com sua Popular Editora, montada em João Pessoa, na Paraíba do Norte. Foi mãe de Altimar Pimentel, estudioso da cultura brasileira, observador atento de nossa brasilidade. O folheto não trata de uma narrativa, mas da reflexão sobre o papel da mulher no universo cordelístico. O preconceito, o mercado escasso, a desconfiança dos pares masculinos são os elementos para a reflexão. Dalinha é zelosa em sua poética e cobra a excelência do cordel em sua produção. Não só na sua, mas na produção feminina e no todo nacional. Ao se referir à produção de Maria das Neves (Altino Alagoano) apresenta os títulos da pioneira: O Violino do Diabo, O Corcunda de Notre Dame e O Amor Nnnca Morre, nas estrofes 7, 8 e 9, respectivamente. Na estrofe 8, porém, há uma pequena inexatidão: o seu pai, editor, nunca editaria um folheto da filha. Francisco das Chagas morrera em 1930 e Maria das Neves só publicaria o seu primeiro trabalho em 1938. Mas isso não retira o brilho e o chamado. São 24 estrofes bem elaboradas, ritmo bem definido, pois Dalinha tem a acentuação do verso no coração, os versos voam, batem asas. É um ensaio pertinente. Chama a atenção a apresentação do poema feita por Bastinha Job, outra expoente do cordel brasileiro, escrevendo com intensa responsabilidade as páginas do cordel no Brasil.


Josenir Lacerda, cearense do Crato, é uma pensadora do cordel. O seu folheto A Medicina No Cangaço abriu nossos olhos para a o ensaio sobre a medicina popular no Nordeste. Outros poeta, alertados, empreenderam outros olhares sobre o tema do cangaço, pensando-o, ao invés de narrá-lo, mas foi Josenir, a mulher de escrita forte e precisa, quem abriu-nos a porta. No folheto O Saber Do Povo, ela lança-se por um viés mais abrangente ao observar a criatividade popular para as encruzilhadas da vida. O falar nordestino já foi bastante cantado e explorado pelo cordel, também o foram os provérbios, ditados e dialetos, agora, Josenir ancora sua lira nas expressões comparativas, metafóricas. E desfiam-se s expressões do povo. Tomando como base formal a setilha, em 32 estrofes, apresenta-nos 27 expressões das mais variadas para as mais diversas situações. Aplicada na rima, não é repetitiva, pelo contrário, é ousada. Por exemplo, na estrofe 12 rima “xêxo”, com “trecho” e “Alêxo”, aproveitando-se do falar coloquial sem modificar a maneira como é pronunciada, pois ninguém, no nordeste profundíssimo, pronuncia “seixo”, mas “xêxo”. Tampouco “Aleixo”, mas “Alêxo”. Já na estrofe 23 traz a expressão “mais fino que assobio de soim.”, grafada como o dito pelo sertanejo. Não significa que Josenir não conheça ou tente forçar a barra, não, não é isso. É o respeito ao tema, o respeito às coisas mais interessantes do povo. A última estrofe, seguindo uma marca formal cordelística, a autora grafa seu acróstico. Essa característica, o acróstico, é um dos elementos que fazem o cordel fugir ao que alguns pesquisadores e estudiosos querem: o traço da oralidade. O acróstico só é notado quando está no papel, é a assinatura do poeta, visível no papel e nunca no arco sonoro. Josenir é senhora dessa seara. Como diz José Joel de Souza, na pequena apresentação, na primeira contracapa, ela “brinca com os versos.” O cordel brasileiro sempre sabe escolher aqueles que lhe serão fiéis. É mais um cordel etnográfico de vasta importância.
Susana Morais Cordelista, pernambucana, firmou-se no mundo do cordel com muita propriedade. Dialogante, escreve boas páginas de cordel no meio virtual, percebendo a importância da interferência digital na atualidade e no futuro. No título Banditismo Social: O Cangaço e Lampião, foge à narrativa, como observei no caso de Josenir, para trabalhar partindo do todo, o banditismo social, para fechar sua lente no famoso capitão. Não perdoa, nem lança laivos de louvação sobre o cangaceiro, como está na setilha 4, mas faz um círculo no qual consegue visualizar o todo social da época. Recorre aos elementos presentes no sertão naquele tempo, seja coronelismo cruel, fome, seca e miséria, para situar as ações cangaceiras, afunilados pela injustiça do Estado e da política. Na estrofe 13, ao pensar as perseguições do Estado a tudo que significasse busca libertária, cita o célebre caso da Coluna Prestes, mas não se aprofunda. Cabe-nos apenas apontar as profundas diferenças entre os dois movimentos, o cangaço e a Coluna, porém a poeta tem autonomia para suas citações. Observo ainda um traço de contradição quando, na estrofe citada acima, a de número 4, a autora aponta para um Lampião “desalmado e desumano”, mas na estrofe 21 alardeia: “Dou um Viva a Lampião e ao Cangaço no sertão.” Pode-se minorar a contradição na compreensão de um Lampião, indivíduo, pessoa, aí sim carregado pelos adjetivos, na estrofe 4, e um Lampião icônico, simbólico de um movimento de resposta às vicissitudes sertanejas da época, mas toda a interpretação agora torna-se muito rasa e exige um aprofundamento em textos vindouros. O cordel ensaístico de Susana Morais termina, na página 8, última página do folheto, com uma homenagem à Nação Zumbi e a citação oportuna a Chico Science na canção Banditismo Por Uma Questão De Classe. Finalizando deve-se observar as rimas da estrofe 5 e da estrofe 15 nas quais a autora rima “história”, “palmatória” e “memória”, na primeira, e “memória”, “história” e “trajetória”, na segunda, repetindo duas palavras na construção das duas sextilhas. O poema é uma reflexão sobre o cangaço como levante social (estrofe 15 e seguintes) e aposta na educação como fator de mudança social (estrofe 20). Susana se assina entre os escolhidos.
Izabel Nascimento, sergipana, filha do clássico Pedro Amaro, herdeira de sua veia poética, tem uma missão: perfazer os passos familiares nas trilhas da cultura nordestina, seja na música, seja na poesia. Assim como Susana Morais, compreende o momento tecnológico e empreende a cruzada ocupando territórios (físicos e virtuais), tanto no jornal impresso, com sua participação semanal no Cinform, veículo jornalístico aracajuano, seja no seu canal no YouTube, ou em vertentes artesanais como as intervenções “cordel no guardanapo”, ou em seus perfis nas redes sociais. Izabel tem a consciência de sua atuação. Paraíba do Sul, O Testamento De Um Rio é um ensaio cordelístico centrado no eco-ambientalismo. Se Dalinha Catunda, Josenir Lacerda e Susana Morais preferiram as setilhas para seus poemas, Izabel elege a décima de sete pés. Nosso escreviver sobre o cordel nos deu a certeza de que a sextilha, a setilha e a décima são as modalidades estróficas mais utilizadas pelos poetas. A sextilha abrangendo a maioria, a setilha, em seguida e a décima em terceira preferência. Já na primeira estrofe, Izabel nos surpreende com um verso, um pé do seu poema, formado apenas por uma palavra: “Extraordinariamente”. Ousadia numa palavra de sete sílabas poéticas. Observe-se também que a décima utilizada não é a décima comum na armadura ABBAACCDDC, mas ABCBDDEFFE. Considerem-se na equação (Sim! O cordel também é matemática, a busca pelo número áureo!) as incógnitas iguais são as rimas, assim teremos a ideia estrófica. No seu espelho poético, Izabel solicita o olhar crítico sobre as condições de depredação que vive o Rio Paraíba do Sul. Convoca a União e os estados banhados pelo rio, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, para a tomada de atitude na busca de salvar o rio de “Amaldiçoada Herança.” A partir da terceira estrofe, o rio assume a retórica de seu próprio testamento que segue até a estrofe 29, visto que nas estrofes de 30 a 32, a autora retoma a rédea de sua escrita para assinar o poema. Perceba-se que na estrofe 31 há a menção ao poema ter sido a narração de um fato, o que se revela em certo equívoco pois um testamento não é um fato, mas a reflexão e orientação para o futuro. Além disso, chamo a atenção para duas estrofes fundadas com preciosismo: a estrofe 6, na qual, nos dez versos, traça-se o percurso do rio, desde São Paulo, na Serra da Bocaina, até seu desaguar no norte fluminense; e a estrofe 22, quando se abre um painel para a religiosidade do povo brasileiro e seu sincretismo, clamando a Deus, Oxalá, Oxum, Jesus e Jeová pela saúde do rio. Izabel aos poucos consolida-se como uma das vozes femininas mais importantes para o cordel brasileiro.
Meu olhar sobre esses quatro folhetos é apenas para fortalecer o que defendo na introdução: o cordel não é apenas narrativo. Vai além, abrangendo todo um complexo poético em vários caminhos estéticos.

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